Dona Angélica é senhora carismática, uma mulher capaz de transformar tragédias gregas em excelentes comédias. Cabelos brancos, meio cobertos por um pedaço de pano, olhos atentos a qualquer movimentação. Raríssimos encontros em minha vida me permitiram estar ao lado de alguém de tão nobre preocupação e complacência. “Senta menino”, “puxa uma cadeira menina”, convites sinceros que enriqueceram aquela tarde de boas gravações. Maria, sua irmã, outra jovem senhora, acalentou nossas emoções com sua doce maneira de falar. Sabíamos aonde iríamos, nos predispomos ao ineditismo e perseveramos pelo bom desempenho do projeto. O que não imaginamos foi a grandeza nas lições de vida que pudemos conhecer. Uma prosa enriquecedora que ficará guardada em nossas memórias.
Fez-se necessário falar sobre a morte para conhecermos a vida. Numa troca de diálogo que retrata muito mais a visão do cotidiano de cinco pessoas do que sobre um fato consumado, esse é um registro de ideias convergentes que se encontraram num dia. Um encontro inesperado, mas justificado pelos extremos, a vida e a morte, em busca de um sentido.
D. Angélica iniciou esse discurso quando, na década passada, fez uma compra. Esteve ao lado dos bens adquiridos durante anos, mas quis sua reflexão que o dia-a-dia fosse modificado. “... mas ela não chegava, mandei o menino quebrar e botar fogo”. Às irmãs, restou uma companheira, sempre funcionando sob o compartimento na estante do quarto.
É nessa época que D. Angélica condena a filosofia shopenhaueriana que dizia: “Não devíamos amar a vida, já que ela nos troca ou nos lança para as garras da morte” e faz as pazes com Epicuro, filósofo grego que se dedicou em refletir sobre a felicidade, e para tanto, considerou: "A morte para nós não é nada, visto que todo bem e todo mal residem nas sensações, e a morte é justamente a privação das sensações."
Talvez ela não conheça este mundo confuso da filosofia, no entanto assistir ao Maria do Caixão, nos permitirá conhecer a alma de uma mulher provocadora de reflexões e nos colocará em profunda análise sobre nossas próprias vidas.
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